Diálogos com Chávez e Bush
BRASÍLIA - Depois do sucesso de sua visita aos países
nórdicos e à Espanha, cercado de reis e rainhas, continua a incursão
do presidente Lula pela política externa. Hoje, em Manaus, terá
um encontro com o presidente Hugo Chávez, com hora para começar
mas sem hora para terminar. Cuidarão de aparar as arestas existentes
entre o Brasil e a Venezuela, com ênfase para um tema que certamente não
tornarão público: o rearmamento.
Com que objetivos o governo de Caracas comprou três esquadrilhas de caças
Sukoi e helicópteros de última geração, da Rússia,
além de ter equipado seu exército com modernas peças de
artilharia e encomendado um milhão de fuzis para distribuir pela população?
Chávez não deixará de explicar que tudo se deve à
perspectiva de seu país ser invadido pelos Estados Unidos, hipótese
meio tresloucada por dois motivos: os americanos já enfrentam problemas
bélicos em demasia, do Afeganistão ao Iraque; e se decidissem
invadir a Venezuela, 15 minutos bastariam para demonstrar superioridade absoluta
em material de guerra.
O presidente venezuelano poderia indagar do nosso presidente o que significam
as declarações do ministro da Defesa do Brasil, empenhado em restabelecer
o potencial da outrora reforçada indústria bélica nacional,
hoje posta em frangalhos. Terá, o companheiro Chávez, informações
a respeito de que Nelson Jobim, apesar dos conflitos político-ideológicos
com alguns generais, vem sendo considerado pelos alto-comandos como o melhor
ministro desde a fundação do Ministério da Defesa. Por
quê? Porque conseguiu, em poucas semanas, obter do presidente Lula verbas
e promessas para o reequipamento de nossas sucateadas Forças Armadas.
Obviamente não teria esse esforço castrense nacional nenhuma
relação com a possibilidade de uma invasão pelos Estados
Unidos, sequer na Amazônia. Os meios de dominação americana
são outros, quem sabe com batalhões de ONGs. Mesmo assim, diante
de um risco teórico à nossa soberania na região, desde
os tempos do ministro Leônidas Pires Gonçalves que se impõe
a única doutrina possível: transferência de unidades militares
do Sul e do Sudeste para o Pará e o Amazonas, dentro da ressalva de que
seríamos derrotados nos mesmos 15 minutos, numa guerra convencional,
mas jamais com a transformação de nossos guerreiros em guerrilheiros.
Essa metamorfose é que vem sendo desenvolvida, porque com ela não
teríamos condições de impedir a entrada de exércitos
alienígenas, mas, com toda certeza, impediríamos que saíssem,
a não ser como saíram do Vietnã. Sendo assim, a pergunta
que Lula fará a Chávez, e Chávez a Lula, continuará
sem resposta: para que estamos nos armando, países limítrofes
e de longa tradição de amizade?
Diálogo irreal com Bush
Outra mostra da presença do presidente Lula nos meandros da política
externa acontecerá na próxima semana. Como vem fazendo desde que
assumiu, viajará a Nova York para a abertura dos trabalhos da Assembléia
Geral das Nações Unidas. Está agendado um encontro com
George W. Bush, depois do tradicional discurso de Lula, em plenário,
protestando contra a distância que separa ricos e pobres. Aqui será
preciso o presidente brasileiro ir com cuidado.
Na recente viagem à Europa, ele avançou o sinal. Eufórico
pelo sucesso da venda do etanol brasileiro, não reparou que os governos
dos países visitados induziram-no a dizer o que não devia, coisa,
aliás, que eles não disseram. Como justificar Lula anunciando
que irá aconselhar o presidente Bush a cuidar sozinho da crise econômica
gerada pelas especulações imobiliárias nos Estados Unidos?
Se insistir nessa inconveniência, poderá ouvir que, além
de não ser a sua praia, qualquer crise econômica verificada acima
do Rio Grande afeta o mundo inteiro. Fosse o presidente Bush um homem de cultura
e ainda poderia corrigir o presidente brasileiro, esclarecendo que o Oceano
Atlântico separa os Estados Unidos da Europa, não os Estados Unidos
do Brasil, como Lula afirmou, esquecendo de que integramos o mesmo continente.
Enfim, o Itamaraty aposta na empatia que une os dois presidentes para evitar
constrangimento no diálogo. Afinal, apesar das discrepâncias e
conflitos de interesse entre os dois países, Lula e Bush se entendem.
E se merecem.
Pedro Primeiro
Será lançado hoje, aqui em Brasília, mais um livro sobre
Pedro Aleixo, completo professor de democracia cujas lições deveriam
pautar o Congresso Nacional. No caso, preparado por seu filho, padre José
Carlos Aleixo, o livro aborda as colaborações do pai na imprensa
mineira, desde os anos trinta. Porque Pedro Aleixo também foi jornalista,
além de político de escol, sagaz advogado e administrador de reconhecida
competência.
Quando secretário do Interior no governo Milton Campos, em Minas, era
para ele que o governador recorria, sempre que diante de um problema grave.
Recomendava aos interlocutores "que falassem com o Pedro, primeiro".
De tanto repetido o conselho, veio o apelido gerado pela delicada verve mineira:
Pedro Primeiro...