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September 20 Um texto de Carlos Chagas
BRASÍLIA - Depois do sucesso de sua visita aos países
nórdicos e à Espanha, cercado de reis e rainhas, continua a incursão
do presidente Lula pela política externa. Hoje, em Manaus, terá
um encontro com o presidente Hugo Chávez, com hora para começar
mas sem hora para terminar. Cuidarão de aparar as arestas existentes
entre o Brasil e a Venezuela, com ênfase para um tema que certamente não
tornarão público: o rearmamento.
Com que objetivos o governo de Caracas comprou três esquadrilhas de caças
Sukoi e helicópteros de última geração, da Rússia,
além de ter equipado seu exército com modernas peças de
artilharia e encomendado um milhão de fuzis para distribuir pela população?
Chávez não deixará de explicar que tudo se deve à
perspectiva de seu país ser invadido pelos Estados Unidos, hipótese
meio tresloucada por dois motivos: os americanos já enfrentam problemas
bélicos em demasia, do Afeganistão ao Iraque; e se decidissem
invadir a Venezuela, 15 minutos bastariam para demonstrar superioridade absoluta
em material de guerra.
O presidente venezuelano poderia indagar do nosso presidente o que significam
as declarações do ministro da Defesa do Brasil, empenhado em restabelecer
o potencial da outrora reforçada indústria bélica nacional,
hoje posta em frangalhos. Terá, o companheiro Chávez, informações
a respeito de que Nelson Jobim, apesar dos conflitos político-ideológicos
com alguns generais, vem sendo considerado pelos alto-comandos como o melhor
ministro desde a fundação do Ministério da Defesa. Por
quê? Porque conseguiu, em poucas semanas, obter do presidente Lula verbas
e promessas para o reequipamento de nossas sucateadas Forças Armadas.
Obviamente não teria esse esforço castrense nacional nenhuma
relação com a possibilidade de uma invasão pelos Estados
Unidos, sequer na Amazônia. Os meios de dominação americana
são outros, quem sabe com batalhões de ONGs. Mesmo assim, diante
de um risco teórico à nossa soberania na região, desde
os tempos do ministro Leônidas Pires Gonçalves que se impõe
a única doutrina possível: transferência de unidades militares
do Sul e do Sudeste para o Pará e o Amazonas, dentro da ressalva de que
seríamos derrotados nos mesmos 15 minutos, numa guerra convencional,
mas jamais com a transformação de nossos guerreiros em guerrilheiros.
Essa metamorfose é que vem sendo desenvolvida, porque com ela não
teríamos condições de impedir a entrada de exércitos
alienígenas, mas, com toda certeza, impediríamos que saíssem,
a não ser como saíram do Vietnã. Sendo assim, a pergunta
que Lula fará a Chávez, e Chávez a Lula, continuará
sem resposta: para que estamos nos armando, países limítrofes
e de longa tradição de amizade?
Outra mostra da presença do presidente Lula nos meandros da política
externa acontecerá na próxima semana. Como vem fazendo desde que
assumiu, viajará a Nova York para a abertura dos trabalhos da Assembléia
Geral das Nações Unidas. Está agendado um encontro com
George W. Bush, depois do tradicional discurso de Lula, em plenário,
protestando contra a distância que separa ricos e pobres. Aqui será
preciso o presidente brasileiro ir com cuidado.
Na recente viagem à Europa, ele avançou o sinal. Eufórico
pelo sucesso da venda do etanol brasileiro, não reparou que os governos
dos países visitados induziram-no a dizer o que não devia, coisa,
aliás, que eles não disseram. Como justificar Lula anunciando
que irá aconselhar o presidente Bush a cuidar sozinho da crise econômica
gerada pelas especulações imobiliárias nos Estados Unidos?
Se insistir nessa inconveniência, poderá ouvir que, além
de não ser a sua praia, qualquer crise econômica verificada acima
do Rio Grande afeta o mundo inteiro. Fosse o presidente Bush um homem de cultura
e ainda poderia corrigir o presidente brasileiro, esclarecendo que o Oceano
Atlântico separa os Estados Unidos da Europa, não os Estados Unidos
do Brasil, como Lula afirmou, esquecendo de que integramos o mesmo continente.
Enfim, o Itamaraty aposta na empatia que une os dois presidentes para evitar
constrangimento no diálogo. Afinal, apesar das discrepâncias e
conflitos de interesse entre os dois países, Lula e Bush se entendem.
E se merecem.
Será lançado hoje, aqui em Brasília, mais um livro sobre
Pedro Aleixo, completo professor de democracia cujas lições deveriam
pautar o Congresso Nacional. No caso, preparado por seu filho, padre José
Carlos Aleixo, o livro aborda as colaborações do pai na imprensa
mineira, desde os anos trinta. Porque Pedro Aleixo também foi jornalista,
além de político de escol, sagaz advogado e administrador de reconhecida
competência.
Quando secretário do Interior no governo Milton Campos, em Minas, era
para ele que o governador recorria, sempre que diante de um problema grave.
Recomendava aos interlocutores "que falassem com o Pedro, primeiro".
De tanto repetido o conselho, veio o apelido gerado pela delicada verve mineira:
Pedro Primeiro...
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